Num mundo em pandemia, cam girls veem seus números crescerem a cada dia de quarentena

“Antes de você bater uma pra mim, preciso que me faça um favor: arranje álcool em gel e limpe o seu computador.” O pedido feito pela brasileira que usa o nome artístico de Gween Black, 26 anos, para quem a assiste pela internet não se trata de fetiche, piada ou um transtorno obsessivo-compulsivo. Gween é uma cam girl, ou ainda, uma “garota da
webcam”, tentando ganhar a vida em meio à pandemia do novo coronavírus, que colocou o mundo em quarentena nas últimas semanas. O álcool em gel, no caso, “é muito mais pela propaganda, um jeito de dizer que todos temos nossa parte a fazer no combate ao vírus”, explica.

 Gween Black, 26 anos, é uma cam girl, ou ainda, uma “garota da webcam”, tentando ganhar a vida em meio à pandemia do novo coronavírus, que colocou o mundo em quarentena  (Foto: Mayara Marques)

Sua rotina profissional dispensa qualquer contato físico com o público, mas isso não significa que ela está despreocupada com o contágio. “Me parece que as pessoas não têm para onde fugir. Nesta quarentena pretendo ficar online o triplo de tempo porque me sinto responsável pela sanidade dos meus clientes”, conta ela, que já é chamada pelos mais cativos de “musa do álcool em gel do pornô”.

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Exibir o corpo na internet para um espectador desconhecido em troca de dinheiro é profissão e alimenta uma indústria bilionária, que só em 2016 lucrou aproximadamente 3 bilhões de dólares, segundo levantamento feito pela BBC naquele ano. O trabalho de uma cam girl consiste em entreter quem está do outro lado da tela. E entenda entreter como quase qualquer coisa. Vale uma dança, um ouvido atento, uma boa história, uma fantasia temática, uma refeição em frente à lente. No entanto, a atividade ficou mesmo conhecida pelas performances sexuais. Streeptease é um clássico da categoria. Cada minuto em um chat privado com uma cam girl custa de R$ 1 a R$ 4 no Brasil. Itens adicionais, como pedir para ouvir a voz da modelo ou que ela se masturbe em frente à câmera, podem ter custos extras.

Há sete anos, Gween, que mora em São Paulo, entrou no ramo para conseguir uma renda extra enquanto estava na faculdade. Por fim, acabou trocando a carreira na contabilidade pelo streaming erótico de forma definitiva. Mas o “camming”, como se referem as profissionais do segmento ao ato de se mostrar para os outros em tempo real, vai muito além de sexo virtual. “A verdade é que vídeo batendo siririca não vende tanto quanto uma boa conversa”, afirma Gween, que destaca o interesse majoritário pelo diálogo sobre a vida cotidiana entre seu público. Atualmente, a maior parte de seus clientes fiéis são homens brasileiros que têm entre 60 e 70 anos. No entanto, a preferência pela conversa não é característica exclusiva deles: ela também vale para os mais novos. “Sabe aquele estigma de que quem procura por ajuda psicológica é maluco? A minha teoria é que ele afasta as pessoas do consultório e as traz para mim. Não é exagero quando digo que alguém triste e solitário pode acabar encontrando amparo na pornografia”, diz.

A crise da Covid-19 deu a Gween novos clientes e uma carga maior de trabalho – às 18h30 de um domingo, quando conversou com Marie Claire por telefone, ela ainda não havia almoçado. “O tráfego aumentou muito, por volta de 50%. Apareceu até gente que gosta de xingar e ser xingado, coisa que não faço. Mas acho bom, porque assim posso mostrar a eles um lado diferente da pornografia. A atenção que a cam girl vende pode ser mais positiva que isso. A pornografia é realmente uma comunidade.”

O Câmera Privê, uma das maiores plataformas destinadas a cam girls no Brasil, registrou um aumento considerável nas visitas durante o período em que as restrições sociais passaram a ser adotadas pelos governos estaduais. Do dia 15 de março a meados de abril, o site teve picos de mais de 2 milhões de acessos diários. Em comparação aos meses anteriores de 2020, o número representa um crescimento de 13%. E do total de pessoas que chegam ao Câmera Privê nesta quarentena pela primeira vez, 15% é convertido em clientes fixos. “É um resultado orgânico, considerando que optamos por não fazer nenhuma ação de marketing que tenha relação direta com esse momento tão delicado que o país está vivendo. Não nos sentimos confortáveis em utilizar esse episódio para promover nossos serviços”, diz a nota enviada pelo Câmera Privê a Marie Claire.

A cam girl Camila Folgosa, 25 anos, que vive em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, sentiu a diferença no bolso. Antes da pandemia, seu faturamento de segunda a sexta-feira era de cerca de R$ 900; com a crise, saltou para R$ 1.850 (Foto: Mayara Marques)

A cam girl Camila Folgosa, 25 anos – cinco deles em frente a uma câmera –, que vive em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, sentiu a diferença no bolso. Antes da pandemia, seu faturamento de segunda a sexta-feira era de cerca de R$ 900; com a crise, saltou para R$ 1.850. Em uma semana, seu perfil no Instagram ganhou 380 novos seguidores.

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Com marido e filha em casa, Camila tem feito ajustes na rotina de trabalho, que antes se dava apenas na madrugada. Agora, também está disponível pelas manhãs, que aliás se tornou seu período de “maior movimento”. O expediente começa por volta das 8h e costuma ter de seis a sete horas de duração, com pausas previstas para almoço e lanche da tarde. Antes de ficar on-line, a cam girl checa se o quarto no qual se apresenta está com as almofadas de unicórnio no lugar e lençol estendido. Toalhas e lenços umedecidos ao seu dispor são fundamentais caso seja preciso recorrer a eles entre um chat e outro. Banho e maquiagem são obrigatórios e finalizam o ritual prévio. “Depois do banho, gosto de passar bastante óleo para ficar com uma pele bonita na câmera”, afirma. O que acontece depois disso é sempre uma surpresa.

“Dia desses entrou um médico que estava aguardando um paciente chegar. A gente ficou conversando por um tempinho, coisas do dia a dia mesmo”, relata Camila. “Outro dia fiquei preocupada depois de atender um homem que mora em Nova York, fui até dar uma pesquisada na internet para saber como é que está a situação lá. Fiquei chocada com a realidade deles. Parece que aqui no Brasil a gente estava levando na brincadeira ou aguardando o pior chegar.”

A emergência sanitária tem levado Maya Hepburn, 23 anos, a ser procurada com mais frequência nas redes sociais por garotas que querem iniciar uma carreira como a dela. Apesar de morar na cidade de São Paulo, ela atua em sites disponíveis apenas para países estrangeiros e costuma se comunicar em inglês. Segundo o jornal norte-americano The New York Times, o site de camming CamSoda, o maior do país, registrou em março de 2020 um aumento de 37% de novas modelos inscritas, em comparação com mesmo período do ano anterior. Já o ManyVids, do mesmo segmento, teve um aumento na casa dos 69%.

A emergência sanitária tem levado Maya Hepburn, 23 anos, a ser procurada com mais frequência nas redes sociais por garotas que querem iniciar uma carreira como a dela (Foto: Mayara Marques)

No caso de Maya, que tem clientes vindos de locais onde a Covid-19 faz vítimas em larga escala, como Itália e Estados Unidos, já não é incomum aparecer os que relatam a perda de familiares e conhecidos. “A gente não pode ajudar muito, mas pode distrair conversando, fazendo uma tarde mais feliz. Eles até falam: ‘a melhor parte do meu dia é falar com você’.”
Durante a pandemia, o maior valor que Maya recebeu de um único cliente por uma performance foi R$ 1 mil. “Ele simplesmente entrou e me deu. É um amigo antigo e sempre dá gorjetas altas porque gosta de mim”, diz. Adepta de chats abertos, nos quais os telespectadores disponibilizam dinheiro de acordo com sua satisfação ao assisti-la, ela acredita que esse modelo de negócio atrai mais clientes para suas redes sociais e perfis em sites como Patreon e OnlyFans, nos quais vende fotos e vídeos sensuais dela mesma. Há cam girls que também optam por sistemas de pagamento como PicPay e PagSeguro para negociar a venda desses conteúdos pelo WhatsApp.

Mas os ganhos e regalias não vêm de forma necessariamente fácil, segundo a experiência de Mel Fire, 28 anos, que é dominadora profissional, ex-atriz pornô, autora do livro Alpha Woman (disponível em Clube dos Autores, 151 págs., R$ 35,21) e agora, com o isolamento social, cam girl. Em 2013, Mel, de São Paulo, teve uma experiência com o segmento, mas não se deu muito bem com o trabalho que exigia estar online por até oito horas diárias. “Com a quarentena tenho entrado [no site] todos os dias, mas é difícil tratar como trabalho. Estou me acostumando. No começo, achava chato ficar falando com o computador”, conta.

A possibilidade de prorrogação das medidas de isolamento social nos próximos meses leva Gween a antever uma queda na procura pelos serviços das cam girls. “Acho que vai estagnar ou terá menos clientes. Serão muitas as pessoas desempregadas ou que não vão receber. Essas poderão procurar por sites de pornografia com conteúdo gratuito”, explica. O cenário não preocupa Maya, que diz já ter o hábito de reservar uma quantia do que ganha para emergências. “Recomendo que meninas aprendam a se organizar. Um canal do YouTube me ajudou. Cheguei a pagar R$ 3.600 de aluguel por mês morando sozinha, não fazia sentido.”

Mel Fire, 28 anos, é dominadora profissional, ex-atriz pornô, autora do livro Alpha Woman e agora, com o isolamento social, cam girl (Foto: Mayara Marques)
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Luz, câmera e entrega
Internet rápida, câmera com alta resolução e equipamentos de iluminação são imprescindíveis para o trabalho de uma cam girl, mais que um cenário exótico e lingeries sofisticadas. “Me preocupo com a iluminação e com a câmera, elas têm de estar perfeitas, assim como o ângulo e o áudio têm de estar do jeito que gosto”, conta Maya Hepburn, que já chegou a gastar R$ 15 mil em uma câmera profissional. Maya aderiu ao camming há quatro anos, depois de distender a mandíbula por causa de bruxismo e precisar de R$ 5 mil para a cirurgia. A meta foi atingida e o procedimento, realizado, mas dali em diante ela não quis parar. De clientes, já ganhou presentes e foi homenageada com seu nome sendo colocado numa estrela (existem sites que vendem esse tipo de serviço) de verdade – “coisa que namorado nenhum nunca fez” diz –, mas também recebeu pedidos inusitados. “Uma vez, um cara disse que pagaria qualquer quantia para cheirar meu ‘sovaco’. Eu disse: ‘Sinto muito, mas isso não tem preço’.”

Já a camgirl Camila Folgosa hesitou, mas não dispensou lamber a própria axila quando solicitada. Apesar de muitos dos fetiches não serem de seu agrado, ela testa todos, com exceção dos escatológicos. “Fiz um chat em que o cara pediu pra eu pintar as unhas de vermelho porque a mulher dele é evangélica e só as pinta de cor clara. Vez ou outra ele aparece e fala coisas como ‘amo suas unhas’ e ‘cadê o meu vermelhão?’”, lembra, aos risos. Em seu quarto, além dos equipamentos para filmagem, há sempre um salto alto deixado no jeito para o caso de um admirador de pés, um podólatra, dar as caras. Eles não são raros.

“Quando comecei, não tinha noção nenhuma sobre fetiches, muita coisa me assustou”, conta Camila. “Não sabia, por exemplo, que homem pedir para ser dominado fosse tão comum. Geralmente os caras têm até consolo em casa. O que eu faço é guiar e humilhar. Eles se amarram”, afirma. Um de seus clientes chegou a enviar uma “cinta-pau”, a qual traz um protótipo de pênis sustentado por uma faixa que envolve a cintura, para que ela usasse durante as conversas por vídeo. Nas primeiras semanas de quarentena, pedidos nesta mesma linha de submissão apareceram com mais frequência para Gween. “Teve gente pedindo para xingar sem parar por cinco minutos, gente querendo se sentir escrava, um negócio bem degradante mesmo, o que pra mim, honestamente, ainda é esquisito”, diz.

“Foco bastante na conversa. Dispenso chat de pessoa que entra e já pede para eu tirar a roupa”, afirma a professora universitária substituta e cam girl Geek Gordinha, 28 anos, do Rio Grande do Sul. “Sou um ser humano e o camming, para mim, não é só uma renda extra, é uma forma de me entreter. Quero flertar”, diz. Para Geek, a essência de seu trabalho está na troca de ideias e experiências, percepção essa que falta ao usuário brasileiro. “A cultura camming no Brasil existe há pouco tempo, se comparado a outros países. Os caras confundem, acham que vamos fazer tudo o que pedem porque estão pagando.” Os primeiros sites de camming brasileiros dos quais se tem relatos são de meados de 2010, mas nenhum deles vingou. Antes disso, plataformas como o Chatroulette, que permitia conversas pela webcam com desconhecidos do mundo todo, eram usadas para essa finalidade, mas não ofereciam remuneração. Foi apenas em 2013 que surgiu o Câmera Privê.

“Foco bastante na conversa. Dispenso chat de pessoa que entra e já pede para eu tirar a roupa”, afirma a professora universitária substituta e cam girl Geek Gordinha, 28 anos, do Rio Grande do Sul (Foto: Mayara Marques)

O que os olhos veem
Se na relação virtual há espaço para tesão e desabafo, preconceitos do mundo real também são sentidos nos chats frequentados pelas cam girls. O camming é hoje a melhor escolha da vida de Camila Folgosa, mulher negra e gorda, mas já foi causa de muita dor. “Tive muita estria depois da gravidez. Uma vez um cliente entrou na minha sala e falou ‘o que é isso na sua barriga?’. Eu respondi e ele disse que estava com nojo.” Camila ficou três meses sem entrar no site após o episódio.

Por vezes, Geek já atribuiu a queda de faturamento ao seu corpo. Seu peso, que aumentou 30 quilos com um tratamento para controle da ansiedade, foi alvo de frases gordofóbicas como “você não tem de estar aqui, vai comer um x-burguer”. Hoje, em um momento de autoaceitação, Geek gosta de pensar que a relação com o seu corpo não é mais a mesma e que ele próprio não é mais do mesmo no mercado erótico. “As pessoas acham que esse segmento é para meninas que seguem o padrão vigente de beleza, há esse estigma. Mas você tem procura por todos os tipos de corpos, etnias e raças. Para quem está disposta a entrar no ramo, é preciso um pouco de resiliência”, diz.

No Carnaval deste ano, Camila Folgosa protagonizou uma campanha do site Câmera Privê, episódio que conta com orgulho. “Não deixe que ninguém diga que você não pode. Se você quer, você pode. Não existe um padrão de beleza, existe o padrão que a sociedade coloca da morena do cabelo liso, bundão e cinturinha. A maioria das pessoas não é assim. A gente não tem de se deixar abater por essas coisas. Eu, hoje, não levo mais desaforo.”
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